Craques Eternos: Johan Cruyff

Esse artigo foi escrito originalmente como roteiro para o vídeo acima

Existem jogadores históricos e existem treinadores históricos – e existiu um certo holandês que foi as duas coisas. 

Hoje você vai conhecer a história de Johan Cruyff, uma das maiores mentes da história do futebol.

Ajax Desde Sempre

Foto: ullstein/Getty

Nascido em 25 de abril de 1947 em Amsterdã, na Holanda, Hendrik Johannes Cruijff, mais conhecido como Johan Cruyff, quase sempre teve sua vida ligada ao Ajax, pois sua mãe, Petronella, trabalhou no clube como faxineira quando ele ainda era criança. Já o seu pai, Hermanus, fornecia frutas ao clube de Amsterdã como parte de seu trabalho como dono de uma mercearia.

O garoto Cruyff jogava bola ali nas ruas e acabou sendo chamado pro Ajax por uma pessoa que trabalhava no clube, que via ele sempre ali deitando em cima de guris mais velhos. Assim, seguindo a tradição de família, Johan também iniciou uma relação com os ajacieden aos 10 anos, quando entrou pras categorias de base da equipe a pedido de sua mãe, e o motivo é bem curioso: acontece que o Johan Cruyff tinha uma deficiência nos pés, que provocava uma má formação e o obrigava a utilizar aparelhos ortopédicos. Sim, por incrível que pareça, um dos maiores craques da história do futebol cresceu com um sério problema nos pés, o que só deixa claro desde o início como ele teve que superar barreiras que para outros poderiam ser consideradas impossíveis.

Atendendo as expectativas de sua mãe, Johan conseguiu superar seus problemas físicos e em 1964 se tornou jogador profissional do Ajax, estreando aos 17 anos em uma derrota da equipe contra o Groningen, em partida válida pela Eredivisie. Mas apesar do mal resultado, ele já deixou um ótimo cartão de visitas, marcando o seu primeiro gol como profissional logo em sua estreia – dando indícios do futuro meia-atacante artilheiro que se tornaria.  

E essa derrota não foi um resultado atípico, porque na temporada debutante do craque holandês o alvi-rubro da Holanda passava por uma péssima fase, tanto que acabou terminando a temporada 1964-65 em 13º lugar no campeonato holandês – apenas duas posições acima da zona de rebaixamento. Naquela ocasião, o campeão da Eredivisie foi o Feyenoord, um dos eternos rivais do Ajax.

Mas para a temporada seguinte, eles seriam presenteados com a junção de dois fatores que hoje a gente pode dizer que mudou para sempre a percepção do futebol na Europa e quem sabe no mundo inteiro: esses dois fatores são Rinus Michels e Johan Cruyff

Cruyff e Michels 

Foto: Alamy

Em 1965, o Ajax assinou com um ex-jogador do clube para comandá-lo à beira do campo. Foi aquele que se tornaria o maior treinador de sua história: o holandês Rinus Michels, que era repleto de ideias revolucionárias em mente para mudar completamente o nível de jogo do Ajax. E sabe quem também era cheio de ideias diferenciadas e enxergava muito além dos outros num campo de jogo? Johan Cruyff. Quando você junta um revolucionário em campo com um na área técnica, o resultado é óbvio: revolução.

Essa parceria não demorou nem um pouco pra mostrar resultados e, logo na primeira temporada completa juntos, eles já conseguiram levar o Ajax ao título do campeonato holandês. De quase rebaixado em uma temporada e tendo que ver o rival levar o título pra casa, o Ajax foi campeão com sobras da Eredivisie na temporada 1965-66, com 7 pontos de vantagem pro segundo colocado, que foi o próprio Feyenoord – além de ser o melhor ataque e a melhor defesa da competição. Foi aqui que começou a ganhar vida o conceito que mais tarde ganharia o nome de Futebol Total – marcado pela ideia de jogadores que não tinham posições fixas no campo de jogo, estavam sempre se alternando em campo, uma hora aqui e outra hora ali, como figuras de um carrossel. 

Na temporada seguinte, em 1966-67, os comandados de Rinus Michels liderados por Johan dentro de campo não tiraram o pé do acelerador – em especial o gênio, que fez a sua primeira temporada com credenciais de um dos melhores jogadores do mundo. O Ajax faturou o bicampeonato da Eredivisie, mais uma vez deixando o Feyenoord em segundo e agora com a absurda marca de 122 gols marcados – dos quais 33 foram de autoria de Johan Cruyff, artilheiro da competição. O detalhe é que são 34 rodadas, então ele teve uma média de quase 1 gol por jogo em sua terceira temporada como jogador profissional.

Além disso, Johan também marcou um dos gols da final da Copa contra o NAC Breda, que deu ao Ajax a dobradinha da liga e copa nacional daquela temporada. No fim de 1967, esse desempenho fenomenal levou Cruyff aos seus primeiros prêmios individuais: o de melhor jogador holandês do ano e a Chuteira de Ouro da Europa. Já era mais do que perceptível que o alvi-rubro de Amsterdã estava criando um monstro e isso só tendia ficar ainda mais claro no decorrer dessa história. 

Em 1967-68, o Ajax seguiu dominando o futebol holandês e confirmou isso com o tricampeonato seguido da Eredivisie – com Johan Cruyff mantendo os excelentes números de gols e sendo vice-artilheiro da competição com 26 bolas na rede. Com a força local mais do que comprovada, Cruyff e Michels agora tinham a responsabilidade de levar a conquista a outro patamar: estava na hora de ir para a Europa. 

As Primeiras Grandes Frustrações de Cruyff

Foto: Sepia Times/Getty

Pela terceira temporada seguida, o craque do Ajax marcou um número expressivo de gols no campeonato holandês, com 25 cravados na edição de 1968-69. No entanto, o campeão acabou sendo o rival Feyenoord, uma vez que o Ajax focava suas forças em conseguir o topo do futebol europeu, que era a taça da Copa dos Campeões – atualmente conhecida como Champions League.

Com uma grande campanha, o time comandado por Rinus Michels teve como primeira prova de fogo o adversário das quartas de final, Benfica, que na época era um dos times mais fortes do mundo, liderado pelo craque Eusébio, o Pantera Negra. O confronto foi tão equilibrado que precisou de 3 jogos pra definir um classificado, pois nessa época não havia desempate por pênaltis ou gol qualificado – e nesses 3 jogos, o gênio marcou 3 gols e ajudou o Ajax a avançar.

Após eliminar o menos desafiador Spartak Trnava nas semifinais, eles finalmente chegaram a decisão da Champions e tinham tudo pra conseguir a glória máxima, só que tiveram pela frente o Milan, um time mais experiente e mais acostumado aos grandes jogos europeus, fato que foi traduzido no placar da final: 4×1 pros rossoneros. 

E para completar o combo de frustrações, na temporada 1969-70, o arquirrival dos Ajacieden, o Feyenoord, se tornou o primeiro clube holandês a vencer a Champions League, um fato que jamais poderia ser apagado da história. Mesmo sendo outra vez campeão holandês, o quarto título da Eredivisie da então curta carreira do gênio Johan Cruyff guardou uma frustração muito grande, a qual serviu como motivação para o que ele construiria na década de 70 – uma década que ficaria eternizada para sempre nos livros de futebol com a lendária camisa 14, a qual ele começou a utilizar justamente em 1970 e por um motivo extremamente casual: após um período sem poder jogar, Johan teve o número 9 que ele utilizava dado para outro jogador, e assim ele teve que escolher outro número e optou pela camisa 14, a qual viraria marca registrada para sempre do gênio. 

O Tri do Futebol Total 

Foto: Manners Magazine/Amp

Na temporada 1970-71, Johan liderou o determinado Ajax na busca de igualar o feito do Feyenoord e impedir que o seu maior rival fosse o único clube holandês campeão da Champions League. O caminho dos amsterdammers teve como rivais de peso o Celtic e o Atlético de Madrid, porém nenhum foi capaz de pará-los até a grande decisão contra o Panathinaikos, treinado pelo lendário Ferenc Puskas.

Mas não havia lenda que pudesse impedir o Futebol Total de dominar a Europa e assim o Ajax venceu por 2×0 e se consagrou campeão europeu no mítico Estádio de Wembley. O Feyenoord teve o gostinho de ser o único clube holandês a vencer a Champions por apenas 1 aninho. Para coroar ainda mais o ano dos ajacieden, Johan Cruyff foi eleito o Bola de Ouro da France Football no fim de 1971, se tornando o primeiro jogador holandês a levar a honraria pra casa. Mas se você pensa que isso deixou Cruyff e cia satisfeitos está muito enganado, porque eles ainda queriam muito mais.  

O Ajax esnobou completamente o Intercontinental de Clubes e abriu mão de enfrentar o campeão da Libertadores, tendo em mente apenas um objetivo: unificar as coroas da Holanda e da Europa, conquistando as duas na mesma temporada.

Mas para isso, eles tiveram um susto logo de cara: uma das mentes responsáveis pela criação daquela equipe fenomenal, o técnico Rinus Michels, decidiu encerrar seu ciclo no clube holandês e rumou para a Espanha, onde passaria a treinar o Barcelona. O romeno Stefan Kovacs assumiu o cargo e não deixou a peteca cair, porque mesmo sem Michels, a alma do Futebol Total ainda estava no campo, afinal o Cruyff era considerado também um dos grandes responsáveis por aquele time pois agia como uma extensão do técnico nas 4 linhas, orientando e instruindo todos os seus companheiros sobre como eles deveriam se comportar naquele esquema. Parecia até que ele dava jeito pra ser técnico um dia, quem sabe?

Foto: UEFA

Para o azar dos rivais do clube alvi-rubro da Holanda, na temporada de 1971-72 o Johan atingiu o seu auge e não deu a menor chance pra quem tivesse que enfrentá-lo. O camisa 14 foi artilheiro da Champions League com 5 gols e deu o bicampeonato europeu ao Ajax, que derrotou a Inter de Milão na final por 2×0, com dois gols de Cruyff – e o detalhe é que essa final foi em Roterdã, cidade do Feyenoord. Na Eredivisie, tampouco o Ajax deu sopa: campeão com sobras, 30 vitórias em 34 jogos, e vendo Johan ser artilheiro com 25 gols. Os amsterdammers ainda faturaram a Copa da Holanda, fechando a histórica Tríplice Coroa daquele que foi o melhor ano que o Ajax já teve. Para fechar aquele perfeito 1972, eles aceitaram jogar o Intercontinental de Clubes e venceram o Independiente lá na Argentina – como o Mundial era diferente naquela época – levando enfim o título de campeão do mundo. 

Em 1972-73, Cruyff já tinha em mente que não faltava mais absolutamente nada para conquistar no Ajax e iniciou aquela que seria sua última temporada pelo clube – ao menos nessa passagem.

Liderados pelo camisa 14, os amsterdammers apenas confirmaram o que todos já sabiam: que eles eram os melhores. Mais uma vez campeão holandês com mais de 100 pontos, o verdadeiro grande obstáculo da temporada era o tricampeonato seguido da Champions, que para ser alcançado teve algumas pedras bem grandes no caminho.

Nas quartas de final, caiu o poderoso Bayern. Nas semifinais, foi a vez do gigante Real Madrid. E na grande decisão, a vitória por 1×0 contra a Juventus confirmou o feito emblemático: o Ajax foi o primeiro clube depois do Real Madrid a conquistar a Champions League em 3 anos seguidos.

No fim daquele ano de 1973, Johan Cruyff foi pela segunda vez eleito o Bola de Ouro da France Football – não deixando dúvida alguma nas conquistas de qual era o melhor time e quem era o melhor jogador da Europa. Mas apesar de todas as coisas boas, algo mexeu com Cruyff naquele fim de temporada. Os jogadores do Ajax fizeram uma votação secreta pra decidir o capitão e ganhou o Pet Keizer, outro jogador histórico do clube. Assim, o gênio decidiu: era chegada a hora de dizer adeus.       

A Capela de Johan Cruyff – Parte I

Foto: Popperfoto/Getty

Em agosto de 1973, Johan Cruyff seguiu os passos de Rinus Michels e assinou contrato com o Barcelona, se tornando a transferência mais cara da história do futebol naquela época, custando 1 milhão de euros aos cofres do clube catalão. Esse valor era tão surreal nos anos 70, que o governo espanhol não quis aprovar o negócio e, por esse motivo, o Barça teve que fazer uma gambiarra administrativa e registrar a compra do Cruyff como uma peça de máquina de agricultura.

Tal investimento de peso era justificado demais, afinal o Barcelona passava por uma fase extremamente complicada: estava há 13 anos sem vencer o campeonato espanhol, chegando até mesmo a correr risco de rebaixamento em algumas ocasiões. E quem melhor pra resolver esse problema do que o melhor jogador do mundo? E vale o destaque de como o Cruyff foi ousado nesse movimento. Ele era o principal jogador do continente, qualquer clube iria querer contar com ele, mas o cara escolheu justamente um clube que vivia uma fase ruim, ele quis esse desafio de construir algo em um lugar que precisava de uma revolução – assim como foi no Ajax

Johan vestiu a camisa 14 do Barcelona e levou a impressionante quantidade de uma temporada para tirar o clube blaugrana da fila na La Liga. Sim, já em 1973-74, o Barça teve o retorno do seu investimento de forma imediata, sendo campeão com 8 pontos de vantagem pro 2º colocado, o Atlético de Madrid, com o gênio holandês marcando 16 gols naquela campanha.

Era o Futebol Total do Ajax sendo implementado no Barcelona através de Michels na beira do campo e Cruyff dentro das quatro linhas, uma união que mudaria como o barcelonismo enxerga o futebol, sendo a fundação de uma filosofia que ditaria para sempre a fórmula do sucesso no clube catalão. Foi também aí que começou uma relação de irmandade entre o Ajax e o Barcelona, que graças a esses 2 gênios do futebol se tornaram clubes irmãos de espírito, com uma forma similar de sentir e viver o jogo bonito. 

E essa parceria de sucesso entre Michels e Cruyff ainda teria mais um capítulo histórico, aquele que colocou o Futebol Total no mapa do mundo. No meio de 1974, ambos se uniram mais uma vez, agora para representar o seu país no maior palco do futebol mundial: a Copa do Mundo. 

O Carrossel Holandês

Foto: Popperfoto/Getty

A Copa do Mundo de 1974, com sede na Alemanha Ocidental, foi a primeira e única da carreira de Johan Cruyff, e ficou marcada para sempre na história por ser aquela Copa do Carrossel Holandês, onde o mundo inteiro finalmente conheceu o Futebol Total.

Afinal, eram outros tempos, não importava o que fizessem na Champions League que isso não iria chegar a todos os lugares. Mas Copa do Mundo é outra coisa, é uma competição que move o mundo inteiro do futebol e concentra todas as atenções em sua realização.

Logo de início, o indomável Johan já causou polêmica ao retirar uma das tradicionais 3 listras que simbolizam a Adidas, marca responsável por fornecer o uniforme da Seleção Holandesa naquele mundial. O motivo é que o craque era patrocinado pela Puma e se recusava a aparecer ostentando o símbolo da empresa rival. Ele até chegou a ameaçar não jogar o torneio, sendo que ele era o astro da competição já que o Pelé não quis ir. O jeito foi arrancar fora umas das listras – por esse motivo, as fotos que você vê do Johan Cruyff daquele mundial são sempre com as duas listras, que viraram meio que um charme. Já pensou se pudesse ser assim hoje em dia, o que ia ter de uniforme mutilado?

Mas com polêmica e tudo, no fim das contas valeu a pena deixar ele rasgar uma listra e podia até ter deixado rasgar mais, porque aquele Mundial foi um verdadeiro espetáculo de futebol dos holandeses liderados por Michels e Cruyff. O Futebol Total aplicado, com os jogadores de camisa laranja se movendo o tempo inteiro e alternando suas posições com uma intensidade enorme, rendeu àquela equipe o apelido de Carrossel Holandês – que pode facilmente ser entendido quando você observa a dinâmica de um carrossel. A Holanda massacrou seus adversários, incluindo Argentina e Brasil, em partidas nas quais o Johan Cruyff destruiu, fazendo gol em ambas, para levar seu país à decisão da Copa do Mundo, justamente na primeira participação do lendário 14.

Foto: Bob Thomas/Getty

Só que pro azar deles, o rival da final seria um velho conhecido: a Alemanha Ocidental, que tinha a equipe base do poderoso Bayern de Munique – o atual campeão da Champions na época, contando com jogadores excepcionais como Sepp Maier, Paul Breitner, Gerd Muller e o Kaiser Beckenbauer. E se Cruyff já havia batido eles na Champions League jogando pelo Ajax, desta vez o final não seria o mesmo. De virada, a Alemanha venceu a Holanda e levou o caneco para casa.

Acontecia então a maior derrota da carreira do gênio holandês. Mas no fim das contas, a genialidade de Johan e o futebol dos holandeses é tão lembrado ou até mais que a vitória dos alemães – e esse é o tipo de legado que marca gerações, algo que as vezes, ou quase sempre, a pura e simples vitória não é capaz de fazer. 

No fim de 1974, a Europa mais uma vez se rendeu ao talento de Johan Cruyff e o holandês foi eleito o Bola de Ouro da France Football pela 3ª vez – se tornando o maior vencedor da história da honraria naquela época.

O Fim do Craque Total

Foto: Icon Sport/Getty

Johan Cruyff seguiu com sua carreira no Barcelona, mas longe de viver os mesmos anos de glória que teve jogando no Ajax. O clube catalão estava abaixo de seus concorrentes locais e apenas conseguiu vencer mais um título com o gênio holandês, que foi a Copa do Rei da temporada 1977-78. E 78 era ano de Copa do Mundo, mas Cruyff decidiu não participar da competição, e assim nunca mais voltou a vestir a camisa laranja holandesa. O motivo ele só revelaria 32 anos depois, em 2010, quando disse que sofreu um assalto em sua casa na cidade de Barcelona, quando viu sua família correr sério risco de vida. Passado o evento, Johan decidiu que não conseguiria estar focado no futebol pra disputar a principal competição do mundo da bola.

Pra piorar, ele ainda se viu frustrado com a violência excessiva do futebol espanhol, e assim decidiu pendurar as chuteiras em 78, pondo um ponto final em sua passagem como jogador do Barça e inicialmente se imaginava que também seria a sua carreira.

Acontece que, e lá vem coisa bizarra, parece que ele perdeu muito dinheiro sendo enganado por um caloteiro, incluindo grana colocada na criação de porcos, e aí viu no futebol dos Estados Unidos uma oportunidade de ganhar mais dinheiro antes de parar de vez, então foi jogar por um período na América. Lá, ele mais uma vez reeditou a dupla com Rinus Michels, desta vez no Los Angeles Aztecs, sendo considerado na época o MVP, o jogador mais valioso da liga. Ele ainda vestiu a camisa do Washington Diplomats também durante algum tempo. 

Foto: Getty

Cruyff teve um problema de lesão em 1981 e também relatam que ele odiava jogar em grama artificial, o que era comum na época. Então ele acabou tendo curtas passagens em diferentes clubes nessa fase final de sua carreira, quando chegou a negociar com o Leicester mas voltou mesmo pra Espanha, dessa vez para jogar por uma temporada no modesto Levante, emprestado pelo Washington Diplomats.

Ainda sem se encaixar, fez apenas 10 jogos lá e tomou a decisão de voltar às origens e assim foi o momento do bom filho à casa retornar. Johan Cruyff assinou com o Ajax novamente em 1981, talvez com a ideia de viver uma última dança com os amsterdammers. Mas sua tão citada personalidade inquieta e incontrolável acabaria transformando esses últimos anos no futebol holandês em algo muito mais complicado do que se poderia imaginar. 

Johan ainda dividiu o campo com duas jovens promessas do Ajax durante esse período, que seguiram seu legado com a camisa da Holanda – dois rapazes chamados Frank Rijkaard e Marco van Basten

Foto: VI-Images/Getty

Campeão holandês em 81/82 e ganhando o doblete nacional em 1982-83, o Ajax decidiu que não iria renovar o contrato do maior jogador de sua história, pois o considerava velho demais aos 36 anos.

Assim, Johan Cruyff pôs um fim definitivo em sua história como jogador do Ajax – mas ele não o fez com alegria e vontade própria, o que acabou deixando-o magoado e querendo provar que os engravatados que o puseram para fora do seu amado clube estavam redondamente enganados. A maneira que ele encontrou pra fazer isso? Simplesmente assinando com o arquirrival do Ajax: o Feyenoord. Foi um movimento tão chocante que a própria torcida do clube de Roterdã era contra, mas ele não tava nem aí. Pensa que loucura, mal comparando seria como se o Barça não quisesse renovar com o Messi e aí ele se vingasse assinando com o Real Madrid.

Cruyff, agora camisa 10, uniu forças com mais um de seus futuros sucessores na Laranja Mecânica: um jovem chamado Ruud Gullit. O resultado disso é que bem, digamos que aqui ficou uma lição: você não mexe com a honra de um dos melhores jogadores de todos os tempos.

Na temporada 1983-84, o Feyenoord foi campeão da Eredivisie – após 10 anos sem conseguir – e da Copa da Holanda. O Ajax? Engoliu seco a decisão, porque ficou apenas em 3º no campeonato enquanto via Johan levantando taças. Assim, com a dignidade restaurada e em paz consigo mesmo, Johan encerrou de uma vez por todas a sua brilhante e magistral carreira, como um dos melhores e maiores atletas a jogarem futebol neste mundo.  

Ao longo de seus 20 anos de carreira, Johan Cruyff se consagrou dono de 22 troféus, incluindo 10 ligas nacionais – das quais 9 foram a Eredivisie e uma La Liga – e também o marcante tricampeonato da Champions League. Ele marcou 403 gols em sua carreira sendo 271 pelo Ajax.

Mister Johan Cruyff

Foto: Bob Thomas/Getty

Johan Cruyff não conseguiu passar sequer um ano longe do esporte que ele tanto amava e assim seguiu o caminho que todo mundo já esperava que ele seguiria: se tornou técnico do futebol.

As ideias revolucionárias de Cruyff e Michels mudaram para sempre a história do Ajax e agora ele poderia seguir o legado do Futebol Total e levar o jogo bonito a um novo patamar – desta vez, sem Rinus Michels, agora ele era o chefe. Fechou com o Ajax em junho de 1985, curiosamente logo depois daquela treta toda, e teve carta branca do clube de Amsterdã para implementar suas ideias.

Johan tinha à sua disposição um jovem elenco com fome de bola, com destaque pra dois que ele já tinha até dividido o campo, Rijkaard e van Basten. Teve até um certo jovem que iniciou sua carreira justamente nessa época, um conhecido da torcida do Arsenal chamado Dennis Bergkamp.

Seu período como treinador dos ajacieden não durou muito, mas em duas temporadas ele conseguiu liderá-los para vencer duas vezes a Copa da Holanda e uma Recopa da Europa.

Apesar de não ter vencido a Eredivisie, sua equipe jamais deixou de mostrar um futebol extremamente vistoso, marcando 120 gols no holandês de 1985-86 e tendo seu artilheiro van Basten com 37 gols na competição. Não havia como negar que o futebol do time de Johan Cruyff era puro entretenimento. 

Em 1988, Johan fez o mesmo caminho da época de jogador e saiu do Ajax para o Barcelona, onde retomaria seu trabalho de mudar o patamar dos blaugranas como clube e marcaria seu nome para sempre no futebol, desta vez como treinador. 

A Capela de Johan Cruyff – Parte II 

Foto: Neil Simpson/Getty

O interessante é que antes mesmo de começar como treinador do Barça ele havia mudado a maneira do clube enxergar e lidar com o futebol: quando ainda era jogador, ele convenceu o então presidente culé, Josep Nuñez, a criar um centro de formação de jogadores da base seguindo os mesmos padrões da base do Ajax.

O objetivo era dar extrema atenção aos jogadores criados no clube para que eles chegassem ao profissional já habituados a filosofia de jogo do time principal, algo que redefiniu o que hoje conhecemos como La Masia – mais uma das coisas que mostram como esses dois clubes, o Ajax e o Barça, foram se tornando parecidos com o passar do tempo, muito pela influência de figuras como Rinus Michels e especialmente o próprio Cruyff.

Essa influência de Johan sobre os jovens do Barcelona pôde ser vista numa entrevista de Guardiola, que foi seu pupilo no Barça. O técnico catalão descreveu de maneira bem legal a relação com o holandês:

Não se entende a minha vida profissional sem a presença de Cruyff. Ele foi determinante na academia de futebol. Cruyff não me convenceu, eu me apaixonei por aquilo. Ele me dizia que se eu jogasse com dois toques era lento, com três era ruim e com um poderia chegar a ser bom.

Quando assumiu o clube catalão, o Barcelona havia vencido apenas uma La Liga desde a temporada de 1973-74, justamente aquela quando Johan, como jogador, ajudou a tirar o time de uma fila de 13 anos sem conquistar o campeonato espanhol. Além disso, o rival Real Madrid vinha de uma sequência de títulos espanhóis que ainda não estava para acabar – era um dos times mais emblemáticos da história do futebol espanhol, eternizado com o nome La Quinta del Buitre.

Isso sem falar que o clube tinha vivido uma frustração gigantesca na temporada de 1985-86, perdendo a final da Champions League para o Steaua Bucareste nos pênaltis, vendo escapar por entre os dedos a chance de ser pela primeira vez campeão da Orelhuda. Sim, o Barcelona ainda não havia vencido a principal competição do futebol europeu. Situaçãozinha complicada, hein?

Mas se ele foi pro Barcelona da primeira vez em um péssimo momento, por que não repetir a dose, né? Johan estava mais do que determinado a mudar esse cenário e colocar o Barça na primeira prateleira do futebol europeu. 

Um novo Barcelona

Foto: Getty

Com total carta branca para moldar o Barça, Cruyff dispensou vários jogadores mais velhos e começou a investir em jovens das categorias de base do clube e na contratação de outros jovens espanhóis com potencial. Aos poucos, ele foi formando a base de um time que sucederia o domínio espanhol do Real Madrid, e logo em suas duas primeiras temporadas já conseguiu ajudar o Barça a ter um respiro, sendo vice-campeão de La Liga em 1988-89 e 3º lugar em 1989-90. E ainda conseguiu faturar dois canecos: a Recopa da Europa de 1988-89 e a Copa do Rei de 1989-90, uma conquista toda especial por ter sido contra o Real Madrid.

Só que o melhor ainda estava por vir. O Barcelona entrou na década de 90 já com alguns craques estrangeiros fenomenais contratados como Ronald Koeman, Michael Laudrup e Hristo Stoichkov – além de jogadores espanhóis que já estavam no time como Guillermo Amor, Pep Guardiola, Andoni Zubizarreta e Txiki Begiristain, e iniciou a dinastia vitoriosa que rendeu àquele time o nome de Dream Team.

Em 1990-91, o Barcelona de Johan Cruyff venceu o campeonato espanhol e fez cair por terra o sonho do Real Madrid de ser hexacampeão de La Liga – e fez isso com a identidade de sempre de Cruyff: o futebol bonito. Foram 74 gols marcados, sendo disparado o melhor ataque do torneio e terminando com 10 pontos de vantagem para o vice Atlético de Madrid

Mas essa temporada também marcou o primeiro grande susto da vida de Johan Cruyff, causado pelo seu vício em fumar cigarros. O então técnico do Barcelona sofreu uma insuficiência coronária e teve que colocar pontes de safena para lidar com o problema. Foi nessa época em que ele abandonou o cigarro e chegou até a participar de campanhas contra o tabaco.

Mudança de patamar

Foto: Mark Leech/Getty

Em 1991-92, os culés engataram mais um título do campeonato espanhol, fazendo até mais gols que na campanha anterior – 87 bolas na rede. Mas a cereja do bolo seria a tão esperada conquista da Champions League. O trabalho de Johan Cruyff no comando técnico do Barcelona entraria de vez para a história do clube em 20 de maio de 1992, no Estádio Wembley, quando o Barcelona venceu a Sampdoria por 1×0 com gol de falta do Ronald Koeman na prorrogação e se consagrou pela primeira vez campeão da Champions League. O detalhe é que o Barça jogou essa final de laranja, tradicional cor da Seleção Holandesa. Coincidências da vida.

Mas sabe aquela história de como Cruyff era um cara de personalidade forte, que não tem medo de falar o que vem na telha? O preço disso foi cobrado quando o Barcelona foi enfrentar o São Paulo no Intercontinental de Clubes, com direito a uma história muito bacana onde Cruyff e Telê Santana se encontraram no hotel e ficaram maravilhados um com o outro, conversando empolgados sobre futebol até altas horas da madrugadA e fazendo um pacto: se algum jogador dos 2 times não jogasse de acordo com o que eles acreditavam ser futebol bonito, então esse jogador seria substituido na hora.

Johan mandou que o Barça iria vencer sem nem precisar de prorrogação e ainda debochou dos rumores de que o São Paulo, treinado por Telê Santana na época, era um time muito forte fisicamente, que corria o tempo inteiro. O treinador holandês disse que ”quem precisa correr são os covardes”. Bem, O resultado disso foi que o tricolor paulista venceu por 2X1 e saiu campeão do mundo. Johan reconheceu as groselhas que falou e disse que “se for pra ser atropelado, que seja por uma ferrari”, como forma de elogiar aquele timaço brasileiro. 

Foto: Getty

Em 1992-93, o Barcelona seguiu sua dinastia espanhola, vencendo mais uma vez a liga. Para completar, após isso conseguiu pôr as mãos no melhor jogador do mundo daquela época, o craque histórico Romário.

O resultado disso é que mais uma vez o Barcelona faturou o campeonato espanhol: era o tetracampeonato seguido da equipe comandada por Johan Cruyff. Mas apesar das alegrias, viria um enorme baque. Cruyff mais uma vez levou o Barcelona à final da Champions League em 1993-94, mas foi nessa ocasião que o clube sofreu uma de suas maiores derrotas, quando foi amassado pelo Milan por 4×0 na decisão. Sofrimento à parte, nem isso era capaz de manchar o trabalho brilhante do treinador holandês na Catalunha.

Para a temporada 1994-95 o Barcelona teve várias mudanças, perdendo caras importantíssimos como Laudrup, Stoichkov e Romário – esse muito por conta das desavenças com Cruyff.

Era o começo do fim da Era Cruyff em Barcelona e o começo do fim do Dream Team.

Nos anos seguintes, Johan não conseguiu mais levar o Barça a conquista de nenhum título, e assim finalmente decidiu colocar um ponto final naquela história no final da temporada de 1995-96. Cruyff saiu do Barcelona como o técnico mais longevo do clube – e segue sendo até hoje, com 413 partidas ao longo de 8 temporadas. Foi vitorioso com 11 taças, incluindo 4 Ligas, uma Copa do Rei e a primeira Champions League do clube. Um era marcante e inesquecível. 

O legado

Foto: Bob Thomas/Getty

Não havia dúvida alguma de que o Barça era o melhor time do futebol espanhol e um símbolo do jogo bonito durante o período em que Cruyff esteve lá. Johan havia implementado uma filosofia de jogo de tal forma que encarnou em todos os âmbitos do clube blaugrana, moldando o que ele seria pelo decorrer de sua grandiosa história. Havia um Barcelona antes e um depois de Johan Cruyff.

Mais uma vez, o gênio holandês havia construído um legado que, apesar das muitas vitórias, ia muito além delas. O que Cruyff deixou para o Barcelona não foi apenas um presente, mas sim um futuro e uma identidade. Os torcedores culés, que hoje podem dizer que sentem orgulho da filosofia do Barça, podem fazê-lo porque um dia Johan começou uma revolução. Porque um dia ele esteve ali. 

O que outros treinadores fizeram nas décadas seguintes foi dar sequência a uma viagem numa estrada já pavimentada por ele. Como disse uma vez Pep Guardiola, treinador histórico do futebol atual que tanto aprendeu de seu mestre durante o período em que foi jogador de sua equipe:

“Cruyff pintou a capela e desde aí todos os treinadores do Barcelona meramente a restauraram ou melhoraram”.

Mas o que Cruyff representa para o futebol não se limita ao Ajax, à Holanda ou ao Barcelona, mas sim ao jogo como um todo. Johan mudou todas as percepções desse esporte maravilhoso e obrigou todos a evoluírem e se tornarem melhores – ele mudou o patamar do futebol como jogo, como esporte tático e como entretenimento. Não há nenhum exagero quando dizem que ele é uma das – ou talvez a pessoa mais importante da história do futebol europeu e mundial.

Adeus, Johan 

Foto: Stuart Franklin/Getty

Depois de sua carreira como treinador, Johan Cruyff decidiu ficar um tempo descansando e passou a assumir funções que exigissem menos de sua frágil saúde. Chegou a virar comentarista de futebol e trabalhou na diretoria da Seleção Holandesa, do Ajax e do Barcelona. Ao longo dos anos, ele pôde ver como sua influência foi positiva para o Barcelona e o Ajax, clubes que foram campeões europeus nas últimas 3 décadas seguindo a filosofia de jogo implementada pelo craque e apostando em suas academias de jovens na formação do elenco. 

Em muitos anos, Johan acabou sendo honrado com uma série de premiações que reconhecem o tamanho colossal que ele teve para o futebol durante décadas de trabalho. Dentre a enorme quantidade, podemos citar como os principais:

Estar na Seleção de Todos os Tempos da Copa do Mundo pela FIFA. E ele nunca a venceu, pra você ver o tamanho desse cara.

Ser eleito pela FIFA e IFFHS o 2º melhor jogador do século XX, atrás apenas de Pelé.

Ser escalado pela France Football no segundo Dream Team de todos os tempos, perdendo o lugar no primeiro esquadrão para Ronaldo Fenômeno.

Vencer o Prêmio Laureus do Esporte Mundial de 2006, um prêmio concedido a esportistas que fizeram uma significativa contribuição para suas modalidades.

Pouco a pouco, foi ficando cada vez mais claro que Johan Cruyff havia se tornado imortal para a história do esporte. Mas se a figura era para sempre, infelizmente não foi o mesmo caso da carne.

Diagnosticado com câncer de pulmão em 2015, Johan via os efeitos do seu vício de longa data no cigarro cobrar o preço. Apesar da dura batalha, essa partida ele não foi capaz de vencer. Em 24 de março de 2016, Hendrik Johannes Cruijff faleceu aos 68 anos. 

Foto: Lluis Gene/Getty

Em 2017, o Ajax anunciou que faria a maior das homenagens ao maior ídolo de sua história. Hoje, quem vai ver os amsterdammers jogar em seus domínios, pode olhar para cima e ver o imponente nome que batiza o local: Johan Cruijff Arena, além de sua estátua na entrada do estádio.

Em 2019, o Barcelona inaugurou um novo estádio, que serviria como a casa dos jovens que sonham em se tornar jogador do clube principal dos blaugranas e também do espetacular time feminino dos culés. Esse novo estádio ganhou o nome de Estadi Johan Cruyff, em homenagem ao homem que mudou para sempre a história do Barça. E na frente do Camp Nou também tem uma estátua de Cruyff.

Mesmo após tantos anos de sua morte, é difícil não ouvir ou ler sobre ele de vez em quando, tamanha é sua importância e peso para o maior esporte do mundo até hoje. Não importa quantos anos se passem, a marca que Johan Cruyff deixou no futebol é infinita – jamais será apagada e muito menos esquecida. Mesmo após sua morte, o espírito de Johan vive para sempre através do jogo que ele tanto amou e, assim, o icônico jogador camisa 14 e professor revolucionário pôde se tornar eterno.

Foto: Getty

Se você curtiu esse post, considere se inscrever no nosso canal do YouTube e seguir a gente no Twitter e no Instagram para mais conteúdos como esse!

Yuri Dantas
Yuri Dantas
Membro do Euro Fut há mais de 7 anos. Escrevi mais de 100 roteiros pro canal, hoje trabalho nas redes sociais e comento no Euro Cast. Tenho também meu próprio canal no YouTube - Yuri Dantas.
spot_img

Vale a pena conferir

Artigos relacionados

spot_img